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Por Camila Dalvi Venturim

Socióloga formada pela UFF e especialista em Educação em Direitos Humanos e em Educação de Jovens e Adultos

 

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Fonte: Unplash

 

O 12 de junho se aproxima. No Brasil, essa é a data escolhida como “Dia dos Namorados”. Em outras culturas há outras datas para a celebração como o caso americano do “Valentine’s Day” em 14 de fevereiro. A escolha da data no Brasil relaciona-se à véspera do dia de Santo Antônio que, na Igreja católica, é conhecido como “santo casamenteiro”.

 

O sistema capitalista obviamente se “apropriou” da data como estratégia para aumentar os lucros. A ideia de trocar presentes, flores, chocolates ou cartões nessa data interessa aos apaixonados, mas sobretudo ao comércio. Mas agora, os tempos são outros. Estamos em tempos gasosos. Não temos muita certeza sobre como ou quando isso irá acabar. Uma nuvem de informações e desinformações paira sobre nossas cabeças. Vivemos uma pandemia nunca vista ou imaginada pela nossa geração. Provavelmente o comércio sofrerá com a queda no faturamento esperado para a data. Estamos todos preocupados com a sobrevivência no presente e incertos quanto ao futuro. A pandemia afetou a todos. A uns muito mais que outros. A tendência é que freemos o consumo. Mas, migremos o pensamento agora das questões financeiras para as emocionais.  

 

Para além da questão monetária, reconheçamos que com elevados números de contaminados e mortos, o mundo precisou repensar a maneira de relacionar-se. E nós brasileiros, famosos internacionalmente pela afetividade precisamos aprender a reestabelecer novas formas de afeto. O isolamento social se fez necessário e a falta de contato presencial com aqueles a quem tanto queremos, mexe com nossas emoções. Tendemos a ficar mais carentes e vulneráveis por estarmos em confinamento. Ao mesmo tempo, nos vemos obrigados a conviver com o melhor e o pior de nós mesmos.

 

Zigmunt Bauman chama atenção ao fato de que o exílio transcende a questão de fronteiras e para ele, no mundo líquido moderno, todos nós compartilhamos a condição de exilados. A grande questão é que esse mundo “além da fronteira” pode permitir maravilhosos insights. A quarentena, nessa situação, pode se configurar como um exílio dentro de um exílio (mundo moderno) em que a fuga da normalidade, com sorte, permitirá o desenvolvimento de nossas potencialidades criativas e o reconhecimento da autenticidade do nosso ser. Não há rotina para nos afastar daquilo que não queremos ver ou aceitar como, por exemplo, nossos medos e vazios existenciais. As redes sociais, ao mesmo tempo em que assumem um papel importante para nos aproximar de quem está mais distante, roubam boa parte da nossa energia. Sentimos, de modo geral, uma necessidade de tornar público a nossa vida offline. As lives regadas a álcool, por parte do artista ou do espectador, são um exemplo disso. Mas há mais! Passamos a nos cobrar ao ver outras pessoas mantendo rotinas de atividades físicas, ao ver outras pessoas controlando sua alimentação, e outras que estão felizes em seus relacionamentos.

 

Ter um companheiro ou uma companheira parece ser sinônimo de ser bem sucedido. Sobretudo em tempos de isolamento e, ainda mais, próximo ao Dia dos Namorados. Encarcerados nessa máxima, muitas pessoas rendem-se às suas carências e desejam ter alguém, a qualquer preço! É nessa questão que a reflexão do Bauman me parece interessante. 

 

Bauman foi um sociólogo polonês muito conhecido pelas suas teorias com sérias críticas às relações estabelecidas na pós modernidade. Reflexões muito pertinentes aparecem em várias de suas obras através de conceitos como “Modernidade líquida”, “Amor líquido”, “Vida líquida”. A ideia é mostrar essa “liquidez” exatamente como antônimo de sólido. São relações fluidas que correm como o rio. Acerca disso, ele traz uma analogia falando sobre o jangadeiro que se permite levar pelo rio e o marinheiro que, em alto mar, precisa (de posse de uma bússola) definir um rumo e conduzir seu destino. 

 

Em seu livro “Vida líquida”, enquanto analisava uma obra de Ítalo Calvino, dizia que “ligações frouxas e compromissos revogáveis são os preceitos que orientam tudo aquilo em que se engajam e a que se apegam”. Tenho percebido muito desse apego a relações frouxas nessa quarentena. De modo geral, muitos de nós nos apegamos aos números: “Quantos seguidores?”, “Quantas curtidas?”, “Quantas reações a esse material?”, “Quantas interações recebemos?”, etc.  Obviamente as interações virtuais se convertem em dinheiro àqueles que sobrevivem desse meio. Mas não é esse o ponto. Há vários estudos na área neurocientífica que afirmam que essas reações funcionam como injeções de dopamina e fazem-nos sentir mais queridos, amados. 

 

Acontece que esses laços estabelecidos virtualmente podem ser um tanto quanto frouxos. Não tendo consistência na construção dessa relação, a probabilidade desse laço se desfazer é ainda maior. Sobre isso, Bauman afirma que “"ligar-se ligeiramente", contudo, é (...) uma ordem, já que, não importa o que façam, "propriedades, situações e pessoas" continuarão deslizando e desaparecendo a uma velocidade surpreendente - que tentem ou não reduzi-la, não faz diferença” (p. 12).  Fazendo uma auto análise, observaremos, por exemplo, que muitas pessoas da nossa lista de “seguidores” estão deslizando. Com uma boa parte não temos mais contato ou não reconhecemos mais. Quantas vezes nos perguntamos: “De onde conheço essa pessoa mesmo?”. E, assim, muitas delas de fato desaparecem da nossa vida através dessa faxina virtual. 

 

Bauman dizia que “a vida líquida é uma vida de consumo”. Consumimos produtos, consumimos pessoas. Talvez por isso tenhamos tanta necessidade de nos mostrar sedutores, desejáveis. Como se as redes sociais funcionassem como uma prateleira, estamos ávidos por esse reconhecimento dos pares. Mas assim como o consumismo traz sérias preocupações com o descarte do lixo, as relações líquidas igualmente nos preocupam no sentido de que não desejamos ser descartados. Ao mesmo tempo, descartamos pessoas. O número de divórcios cresceu consideravelmente nessa quarentena. Essa despreocupação com o outro, com os sentimentos (seus e do outro) tem muito a ver com a mercantilização do afeto. Muitas pessoas têm traumas não curados em si mesmas e, a partir disso, projetam no outro a salvação para si. Esperam do outro o que só a terapia faria.  

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