Pesquisar

pt br  en us

 

capes horizontal   

Cnpq

        

periodicos2

 

logo faperj cor

 

PROTESTO DE JOVENS NA FAVELA DO BOREL APÓS MORTE DE GABRIEL PEREIRA ALVES, 18, ESTUDANTE ALVEJADO POR BALA PERDIDA ENQUANTO ESPERAVA ÔNIBUS A CAMINHO DA ESCOLA. FOTO: MAURO PIMENTEL/AFP / Reprodução Carta Capital

 

Neste artigo para o site da Carta Capital, a pesquisadora Joyce Trindade (GPDES/IPPUR) aponta como a tentativa de invisibilização dos corpos negros se apresenta no planejamento da cidade e na massacrante distância das regiões periféricas até os locais de tomada de decisões institucionais.

 

O artigo "Compreender o passado, para enfrentar o presente e impactar o futuro" foi publicado no site da Carta Capital, em agosto de 2019. A autora Joyce Trindade é graduanda do GPDES/IPPUR e escreve sobre as temáticas da periferia, raça e gênero como estratégias de incidência social e política. É co-fundadora e diretora do Projeto Manivela e também faz parte do Mulheres Negras Decidem.

 

As opiniões emitidas neste artigo são de exclusiva e inteira responsabilidade do(s) autor(es), não exprimindo, necessariamente, o ponto de vista e/ou posição institucional do IPPUR/FRJ.

 

Nossos corpos desestabilizam as estruturas impostas

Por Joyce Trindade

 

O processo de formação da nação brasileira, durante o contínuo holocausto negro e indígena, é marcado pelo extermínio, dominação, coisificação e negação. A tentativa de invisibilização dos corpos negros se apresenta no planejamento da cidade e na massacrante distância das regiões periféricas até os locais de tomada de decisões institucionais, que são ainda mais intensificadas com as estruturas subalternizadas e discriminatórias dos modais de transportes presentes nas capitais.

 

Regiões periféricas mercantilizadas, segregadas e zoneadas com a autorização do Estado. Onde apesar da Constituição e as legislações urbanas preverem que o planejamento da cidade deve promover a democratização entre seus habitantes, notamos que as decisões tomadas em sua estruturação, expressam os privilégios das elites – herdeiros das empresas escravista, que sobretudo, são os principais interlocutores políticos e econômicos.

 

Os processos de negação de direitos fundamentais, violências sofridas pelo descaso do governo e a subalternização dos corpos periféricos, são institucionalizadas nas raízes históricas que estruturam as capitais e atingem predominante suas/seus moradoras/es negras/os e empobrecidas/os.

 

A população moradora de favelas no Brasil em 2010, chegou a cerca de 11,4 milhões de pessoas  e somente no Rio de janeiro, estavam cerca de 1,4 milhão (IBGE, 2010). Uma nação de favelados! Soma-se a esse número os “territórios invisíveis”; locais periféricos não mapeados pelo Estado, que tornam-se campos de batalhas no processo de especulação imobiliária.

 

A omissão perpetua as estruturas da invisibilidade, através dos instrumentos privados de acumulação, que são arrojados de forma legal entre agentes econômicos e coalizões políticas. Múltiplos atores, distribuídos nas diversas hierarquias que constituem a vida urbana, disputam posições e recursos, sendo a cidade uma arena e objeto de disputa. Dessa forma, os territórios invisíveis apresentam-se como locais de maior vulnerabilidade, sendo alvo de rupturas nos espaços e dinâmicas sócio-espacial.

 

Periferia pautando o futuro?

 

A construção do saber e as formas de vivenciar/estruturar os territórios e as bases legais, estão intrinsecamente ligadas ao imposicionamento da branquitude, estruturando as normas e consequentemente a exclusão. Vocacionar novos arranjos sociais, expandir a compreensão legal do direito à terra e dos mecanismos do Estado, é um agenciamento libertário e urgente que se personifica nas ações de diversos movimentos e coletivos periféricos. Onde cada vez mais, se mostra notório a urgência de pautarmos o nosso futuro a partir da nossa ancestralidade e expertises adquiridas no caos, mas que com o tempo transformaram-se em tecnologias.

 

Não devemos romantizar as favelas e os territórios periféricos, pois como já apresentado ao longo do texto, são espaços construídos dentro dos processos de dominação e exclusão. Entretanto, também se torna urgente reconhecermos que as mesmas, são estruturas contrárias às imposições coloniais. Nações Periféricas que diante da morte e das lutas contra os espaços marginalizados, estão se organizando – se aquilombando, para viver e revolucionar.

 

Durante 2018, escutamos muitas pessoas afirmarem que “ninguém soltaria a mão de ninguém”. Pessoas de diferentes classes, cores e posicionamentos, convictas que aquele era o momento de criar articulações sociais e políticas da base e para base. Entretanto, querida/o leitora/or, as formas de agenciamento de sobrevivência e resgate de sonhos, permanece sendo consolidada pelos periféricos e para os periféricos – Ubuntu.

 

Agenciamentos afro futuristas de potencialidades e impulsionamento de micro transformações territoriais de intervenções coletivas de moradores locais. Micro processos de formulações de projetos de incidências sociais, organizacionais e políticas, que no futuro revelam-se em projetos de alcance revolucionários. Antes, éramos somente empregadas domésticas que insistiam da educação de seus filhos, hoje somos jovens doutores e mestres que estão alcançando espaços inimagináveis pelos seus antepassados – Micros agenciamentos, revelando-se em macros transformações.

 

O nós por nós sendo efetivado na disseminação dos conhecimentos obtidos dentro dos muros universitários, revolucionando o acesso à informação e estruturando modelos de projetos baseados na identificação dos seus corpos como sábios. A insurgência a partir das nossas movimentações, pois nossos corpos desestabilizam as estruturas impostas.

 

Compreender o passado, para enfrentar o presente e impactar o futuro.

 

Joyce Trindade

UFRJ IPPUR - UFRJ
Desenvolvido por: TIC/UFRJ