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Por Maria Fernanda Fontenele

Graduanda em Gestão Pública para o Desenvolvimento Econômico e Social (IPPUR/UFRJ)

 

A última live (08/06) do Ciclo de Debates IPPUR, mediada pelo professor Daniel Conceição, contou com  a presença das docentes Tamara Egler[1] e Lalita Kraus[2], além da doutoranda Fabíola Neves[3], e abordou  o tema “Desinformação, descomunicação e transformação do território”, com foco em ativismo político, manipulação da informação, plataformas digitais e uso da internet nas periferias.

 

Tamara Egler abriu o debate apontando para a invisibilidade das redes sociotécnicas, principalmente as de apoio ao atual presidente, Jair Bolsonaro, cujo desvendamento é fundamental para identificar os atores do processo de comunicação e a política. Segundo a professora Tamara, a comunicação produz a cultura que antecede a política. Para isto, sua pesquisa, com o intuito de analisar as eleições de 2018,  subdivide as redes em campos,,  entendidos como formas de pensar e agir. 

 

Do consolidado de 11 milhões de seguidores, a pesquisadora apresenta quatro grandes campos que compõem  a rede bolsonarista: o campo do ativismo digital, o campo político, armado e ideológico. No primeiro grupo, destacam-se os membros de direita, com grande relevância para os armamentistas, os apoiadores dos valores morais e anti-corrupção. A professora descreve como características principais deste grupo a ideologia conservadora, a defesa de uma economia neoliberal, a interligação com grupos norte-americanos  e o apoio ao porte de armas. As mesmas características se encontram no campo político, novamente com grande participação de atores internacionais, como o presidente dos EUA, Donald Trump. No campo armado, é apontado  o apoio da polícia e das forças armadas, mas também a presença característica das milícias.

 

Citando Freud, a professora afirma que há uma relação de atração para formar lideranças através da criação de uma identidade coletiva compartilhada. sso se formaria a partir do chamado Gabinete do Ódio, que seria o núcleo da rede. Por conseguinte, são formados três grandes grupos para disseminar a informação: os influenciadores, com suas produções ideológicas; os produtores de conteúdo, com a produção de vídeos, fakenews e determinação de alvos políticos; e, por fim, os difusores, isto é, todos aqueles que divulgam pelas redes. Com isso, Tamara Egler defende que ocorre uma difusão rizomática das informações, criando um canal direto entre o Gabinete do Ódio e os difusores, buscando centralizar o discurso autoritário.

 

Lalita Kraus dá continuidade ao debate abordando o tema da  relevância social e política do fenômeno da desinformação, sobretudo ligado aos movimentos pró-governo e mediado pelo aplicativo WhatsApp™, no momento histórico atual. . A pesquisadora cita que existem três fases cruciais nesse processo, sendo a primeira a produção do conteúdo, enquanto a segunda seria a fase de viralização protagonizada  por grupos militantes e, por último, a fase de capilarização das informações a partir da disseminação do conteúdo para outros grupos que não necessariamente são apoiadores do governo. Para a professora Lalita, é nessa última fase que há a formação de um vínculo territorial forte, através de novos espaços híbridos (materiais e imateriais), que se formam a partir da relação entre tecnologia e espaço.

 

Os dispositivos móveis, com seu aplicativos, coletam dados sobre a nossa atividade online e as redes, como a bolsonarista trabalhada por Tamara Egler, manipulam e direcionam conteúdo de tal maneira a construir um consenso através da distorção de informação. Ainda, respondendo a uma questão sobre comportamento dos indivíduos apresentada por internautas, Lalita Kraus afirma que as mídias sociais, pelos próprios algoritmos, criam ‘bolhas’, enriquecidas a partir das “pegadas digitais” que direcionam assim conteúdos mais personalizados. Esse mecanismo, portanto, aumentaria a polarização política, não havendo mais a necessidade de mediar opiniões diferentes dentro das ‘bolhas’,  onde há uma linearidade de pensamento.

 

A professora aponta, também, algumas estratégias expressivas da indústria de desinformação, como a difusão de fakenews,  de conteúdo sensacionalista e descontextualizado, assim como de matérias pseudocientífica . Com isso, abre-se um  processo de privatização da informação, devido ao papel das plataformas digitais privadas, que ….  contra a esfera pública, visto que, no caso de apoio ao presidente Bolsonaro, em tempos de pandemia, por exemplo, o isolamento social tende a ser menor cujo impacto recai sobre o espaço ocupado por toda uma população.

 

Esse fenômeno é estritamente vinculado e provocado pela  indústria de desinformação, já que as plataformas digitais funcionam segundo um modelo de negócio baseado em uma infraestrutura de dados e na propaganda, que lucra com a dinâmica e estratégias da desinformação Além disso o pacote do zero rating oferece uma vantagem concorrencial para aplicativos, como o WhatsApp™ e Facebook, que se tornam os principais meios de informação quando a franquia de dados disponibilizada pelo pacote promocional acaba 

 

A pesquisadora Fabíola Neves aborda as possibilidades de uso da internet em territórios periféricos, compostos, em sua maioria, por populações desfavorecidas. Seu objeto de estudo é o Coletivo Papo-Reto que atua no Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro, em um contexto pré e pós-smartphone. A pesquisadora cita a importância das plataformas digitais para a coleta de dados de relevância social, principalmente em uma área de grande extensão. Com isso, ela apresenta uma reformulação do processo de disseminação de informações, desta vez mais democrático, voltado para proteger e informar a população . Organizados e difundidos pelo Coletivo, os grupos de WhatApp dividem-se em: núcleo rígido, composto pelos fundadores da ONG; moradores-chave, cuja importância na articulação é determinada através da sua área de influência; e os demais moradores que atuam como geradores da informação dessa rede de informação local. As informações coletadas e disseminadas pelos demais moradores é sucessivamente checada pelo grupo dos moradores-chave e difundidas pelo grupo do núcleo duro do coletivo. 

 

Contudo, Fabíola Neves aponta que em geral essas plataformas são pré-moldadas e organizadas por  algoritmos para gerar um conteúdo direcionado e personalizado para o usuário e, ao responder uma pergunta do internauta acerca da importância e relevância social da  educação digital, ela defende que o conhecimento da linguagem da programação, incluindo os  algoritmos, é necessário para combater qualquer processo de  desinformação. Assim é possível garantir um processo de apropriação democrática das tecnologias.

 

As pesquisadoras convergem, assim, na ideia de que o processo de desinformação existe e encontra-se mais presente do que nunca no Brasil, promovido também nas esferas políticas, a partir de omissão e manipulação de dados. 

 

Para mais informações, acesse o canal da Agência IPPUR, no Youtube, e assista a esta e outras lives do Ciclo de Debates.

 

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Notas: 

1. Arquiteta, mestre em Planejamento Urbano e Regional, doutora em Sociologia e, atualmente, professora do IPPUR, além de coordenadora do LabEspaço (IPPUR/UFRJ).

2. Graduada em Administração, mestre em Planejamento para o Desenvolvimento, doutora em Planejamento Urbano e Regional, atua, ainda, como pesquisadora do LabEspaço (IPPUR/UFRJ).

3. Licenciada em Ciências Sociais e mestre em Planejamento Urbano e Regional, é pesquisadora do LabEspaço, desde 2017.

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