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Por Paty Montiel

Doutora em Ciências Políticas e Sociais pela Universidade Nacional Autónoma do México (UNAM) e professora da Faculdade de Economia, na mesma universidade. Membro do Programa Globalização, Conhecimento e Desenvolvimento (Proglocode)

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Introdução

Nos últimos meses ressurgiu na imprensa a palavra desglobalização, um termo usado depois da crise financeira e econômica de 2007-2009 para descrever a contração do comércio internacional. Mas, agora, o uso do conceito renasce com mais força na mídia pelas consequências realmente mundiais da pandemia da Covid-19.

Uma das ações dos Estados nacionais para enfrentar esta pandemia foi, principalmente, o distanciamento social para que não houvesse contato entre as pessoas e evitar a aceleração dos contágios. Mas essa medida também fez com que muitas das atividades econômicas ficassem paradas, provocando uma das maiores desacelerações no Produto Interno Bruto (PIB) mundial dos últimos tempos e uma inevitável crise econômica. Por exemplo, o Fundo Monetário Internacional (FMI) espera que o PIB mundial varie -3,0% em 2020, sendo que para as economias avançadas essa taxa será de -6,1% e, para as economias de América Latina, ao redor de -5,2% (FMI, 2020). Neste contexto, novamente o termo desglobalização provoca uma espécie de “coceira” na boca dos analistas econômicos para descrever as contrações do comércio entre países, a queda no fluxo de pessoas, das mercadorias e dos investimentos. 

Mas essa descrição é muito limitada. Faz menção só a uma característica de globalização: a extensão dos relacionamentos comerciais entre países e empresas, omitindo as características qualitativas e históricas que o conceito globalização abarca. Nosso trabalho defende que não existe a desglobalização, mas sim uma globalização distinta, que já estava sendo configurada depois da crise financeira de 2007-2009 e que a pandemia da covid-19 veio a acelerar. Por isso é preciso estabelecer quais são essas distinções que fazem deste um conceito qualitativamente distintivo. 

1. O que significa a “desglobalização” na mídia?

Em abril, a Organização Mundial do Comercio (OMC) previu para 2020 uma baixa no comércio internacional de produtos entre 13% e 32%. Isso sem incluir nas suas projeções os serviços. No entanto, indicou que aos serviços de tecnologia da informação poderiam se beneficiar da crise atual (OMC, 2020). 

Diante disso, nas últimas semanas diferentes meios retomaram previsões sobre a globalização para perguntar-se se, finalmente, estamos frente a um processo de desglobalização. Por exemplo, desde um ponto de vista descritivo, a Forbes narra a queda, quase completa, da demanda dos serviços de logística (o transporte aéreo e marítimo) para mobilizar as mercadorias dos diferentes setores industriais nesta conjuntura da covid-19 (Forbes, 2020). Por sua parte, The Economist e Letras Libres (no México) indicam também que esta queda dos indicadores do fluxo das pessoas, mercadorias e capital precede os efeitos da crise econômica financeira de 2007-2009 e as políticas comerciais protecionistas do governo do Donald Trump nos Estados Unidos (The Economist, 2020; Díaz Lanchas, 2020). A essas previsões a respeito da globalização são adicionados os alertas sobre os efeitos negativos da promoção de posições protecionistas, desglobalizantes, depois da quarentena (Haas, 2020; El-Erian, 2020). Esses editoriais e opiniões concordam numa mesma coisa: a desglobalização significa o descenso do trânsito das pessoas, das mercadorias e dos investimentos. 

E isso é completamente certo, mas é uma definição inacabada, incompleta e muito limitada, porque faz alusão unicamente a uma dimensão quantitativa do espaço do capitalismo, em termos contrativo-expansivos, e é a mesma visão subjacente ao conceito da globalização. 

Então, pensar unicamente a globalização em termos quantitativos, extensivos, como relacionamentos econômicos mundiais não permite observar as mudanças qualitativas, histórico-estruturais, que têm tido lugar no capitalismo dos últimos cinquenta anos, cujas complexidades estão modificando nossa vida toda antes mesmo da pandemia da covid-19. 

2. As perspectivas sobre a globalização no século XX e XXI

O conceito de globalização foi objeto de um debate intenso nas últimas décadas do século XX e princípios do século XXI. Desde diferentes campos do conhecimento social, sua natureza foi discutida, sobretudo porque o fenômeno tem implicado múltiplos problemas (econômicos, políticos, sociais, culturais, etc.). 

Dabat (2002) identificou cinco perspectivas generais sobre o conceito de globalização, cada uma com diferentes correntes e autores, postulando a globalização como: a) “mundo sem fronteiras”, uma visão apologética do processo histórico da globalização, que vaticinava a morte do Estado nacional; b) “mito”, contrariamente a primeira, é a negativa para aceitar que os fenômenos associados à globalização impliquem uma mudança muito importante nas sociedades; c) “neoliberalismo”, mais relacionado ao triunfo ideológico e político do capitalismo ocidental na Guerra Fria; d) “uma nova etapa histórica”, equivalente a um processo histórico complexo de carácter inédito; e) “mundialização” ou “internacionalização”, referindo-se à perspectiva mais difundida, que não considera a globalização um fenômeno novo das últimas décadas do século XX, mas algo existente há muito tempo (séculos XV, XIX, ou Segunda Pós-guerra, conforme seja o caso). Particularmente, a “internacionalização” parte das observações quantitativas dos indicadores mais tradicionais dos relacionamentos internacionais (como nível do comércio internacional, formas tradicionais da inversão do capital como a inversão estrangeira direta) em detrimento de outros que permitem denotar a novidade qualitativa do processo (págs. 58-66). 

A perspectiva da “globalização como internacionalização” é subjacente à atual discussão sobre as afetações da pandemia sobre o futuro da globalização, mas esta perspectiva ignora os processos históricos do último terço do século XX, que têm reconfigurando qualitativamente o espaço do capitalismo, assim como outros planos da organização social, para dar origem a uma nova fase ou etapa de desenvolvimento capitalista (Dabat, 1993, págs. 157-187). 

Em termos históricos, identificamos, na década de 1970, o esgotamento da fase fordista keynesiana. Economicamente, o término dos acordos de Bretton Woods, que deram estabilidade às relações financeiras internacionais até 1973, colocou fim à “época de ouro” do capitalismo. Essa crise econômica também se acompanhava das crises sociais expressadas e denunciadas pelos movimentos estudantis e feministas do final da década de 1960, quando também a crise ambiental começa a perceber-se como um problema real. Politicamente, a desintegração do bloco socialista e a consequente integração ao mercado mundial dos países ex-comunistas acrescentará escala ao território do capitalismo (Hobsbawm, 1995). Junto com estes processos, na década de 1970, a revolução do microchip (Castells, 1999, págs. 55-92) mudou a base tecnológica da organização industrial profundamente, gerando um novo padrão industrial em torno à eletrônica, informática e as telecomunicações (Ordóñez & Bouchaín, 2011; Dabat & Ordóñez, 2009). Mas também implicou transformações em outros planos da organização social como na cultura e na sociedade civil.

Desde esta perspectiva histórica, o conceito de globalização faz referência a um novo padrão espacial na configuração da fase do capitalismo de finais do século XX, que implica, além da extensão territorial capitalista, novas articulações dos elementos da organização territorial direta do espaço (localidades, regiões, cidades, Estados-nacionais, ordem mundial) e dos elementos da organização não territoriais diretas do espaço (o nível tecnológico, tecno-econômico, socioeconômico e institucional, demográfico, cultural, ambiental) (Dabat, 2002, págs. 67-73). 

Seguindo esta perspectiva de globalização, definitivamente, no século XXI o alcance territorial do capitalismo cresceu exponencialmente, marginalizando a produção não capitalista. As potencialidades da nova tecnologia têm evoluído para expandir a comunicação eletrônica em tempo real em torno ao espaço virtual de internet, e a integração mundial direta da produção em conexões materiais e imateriais. 

Isso permitiu a deslocalização produtiva, alargando as redes da produção mundialmente, internacionalizando o capitalismo, mas também dando origem a novas atividades econômicas, novas indústrias, e revitalização de outras existentes (como a produção automobilística ou a atividade financeira). Mas também, culturalmente, as sociedades migratórias têm as possibilidades de manter a identidade de suas origens com processos complexos de hibridização e conflito. 

Além disso, os Estados-nacionais foram deslocados da condição deescalas principais da organização produtiva pelas cidades e regiões, as quais se articularam diretamente ao comércio internacional através de redes globais de produção. A partir desta configuração do espaço do capitalismo, a globalização foi hegemonizada pelos Estados Unidos e seus aliados, como a União Europeia e o Japão, projetando-se sob a visão do neoliberalismo como uma via do desenvolvimento nesta fase do capitalismo do conhecimento. 

3. A globalização que virá depois da pandemia da covid-19

Nesta linha de pensamento, a globalização é mais ampla que a perspectiva restrita do comércio internacional. A configuração espacial do capitalismo do último terço do século XX, que se apoiou na revolução tecnológica do microchip, tem consequências sociais, culturais, produtivas que não dependem determinantemente das decisões de algumas empresas ou dos governos individuais.

Desde o último terço do século XX até agora, essa revolução tecnológica convergiu com outras tecnologias, como a internet, e aprofundou as capacidades do computador para processar informações. Agora falamos da Big Data, uma acumulação de dados produzidos pelas pessoas a cada dia, tão grande (terabytes, petabytes, exabytes) como heterogênea (vídeo, áudio, interação social e qualquer coisa que possa ser sistematizada em uma base de dados), rompendo com as infraestruturas tradicionais das tecnologias das informações (Joyanes Aguilar, 2013, pág. 3).  

Algumas empresas e Estados têm se aproveitado da Big Datadesde os inícios do século XXI (Zuazo, 2018). Mas, nesta conjuntura de necessário e imperioso distanciamento social, as empresas conhecidas como as Big Tech (Google, Facebook, Amazon, Microsoft, Apple) se perfilam como as grandes ganhadoras da pandemia da covid-19. A base económica dessas Big Teché justamente suas capacidades de coleta, ordenamento e análises dos dados que produzimos na internet, ou através de dispositivos do tipo GPS. Este processo foi acelerado durante pandemia. 

Impulsionadoras de uma globalização mais individualizada, centrada nas preferências dos consumidores que também são produtores de dados, as Big Techpraticamente tomaram conta da economia digital. Paradoxalmente, ao mesmo tempo em que o preço do petróleo teve uma queda histórica (- US$ 37,63 o barril de tipo West Texas em 20 de abril de 2020), o valor acionário conjunto dessas Big Techsomou 750 bilhões de dólares desde finais de março até a final do abril, graças ao excesso social de plataformas digitais para realizar suas atividades, sejam educacionais, de teletrabalho e até de lazer (Magnani, 2020). Mas também, junto às Big Tech,aparecem outras empresas como Netflix, que teve quase 16 milhões de novos usuários entre janeiro e abril, ou a plataforma Zoom, que agora lidera o negócio das reuniões e videoconferências, haja vista os 131 milhões de downloads em abril, 60 vezes mais que o mesmo período do ano anterior (BBC News Mundo, 2020).

Por outro lado, a Big Datanão é exclusividade das grandes corporações. As organizações públicas e privadas podem acessar o conhecimento para usar as informações que, finalmente, deveriam ser de todos. A luta pelo uso aberto e ampliado deste tipo de recurso é a discussão central nos diferentes países, cuja resolução dará as bases para que nós possamos construir outra globalização. 

Reflexões finais

A pandemia da covid-19 revela trajetórias que já vinham sendo traçadas no capitalismo globalizado em seus diferentes planos da organização social. Por isso, é importante observar que a globalização é mais do que relacionamentos comerciais; é uma configuração do espaço capitalista que tem implicado mudanças e convergências tecnológicas, as quais também alteram a mesma organização social. A Big Dataé só um exemplo da compressão espaço-tempo da acumulação dos dados que alimenta a grande indústria capitalista, comandada pelas Big Tech que impulsionam uma globalização distinta, agora mais digital e que pode, ou não, permanecer neoliberal.  

Bibliografia

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