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Por Daniel Macedo Lopes Vasques Monteiro

Doutorando do Programa de Pós-Graduação em Geografia da UFRJ e pesquisador do Núcleo de Estudos Geoambientais (NUCLAMB)

 

 

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Imagem: EBC 

 

A reportagem do Fantástico, da Rede Globo, do dia 05 de julho, colocou em debate público o questionamento do casal que atacou fiscais da prefeitura, no bairro da Barra da Tijuca, Rio de Janeiro. Um dos assuntos mais repercutidos no início do mês de julho foi a frase “cidadão não, engenheiro civil, formado, melhor do que você”.

 

No momento em que ouvi pela primeira vez essa fala, me recordei automaticamente da análise de Milton Santos, quando versou sobre as cidadanias mutiladas no Brasil. Nesse texto clássico e muito atual sobre o debate do racismo, nosso grande geógrafo brasileiro questiona sobre o que é ser cidadão nesse país. Dentre as perguntas iniciais ele lança a seguinte: ser classe média é ser cidadão? 

 

Ninguém melhor que o atemporal geógrafo para nos fazer refletir sobre essa pergunta. De acordo com Milton Santos, ser cidadão é ser dotado de direitos que lhe permitem defrontar com o Estado, mas afrontar também. É ser como o Estado. O geógrafo ainda complementa que o “indivíduo completo é aquele que tem a capacidade de entender o mundo, a sua situação no mundo e que, se ainda não é cidadão, sabe o que poderiam ser os seus direitos”. Ou seja, ser cidadão não é somente saber sobre seus direitos, mas poder exercê-los. 

 

Em contrapartida existem aquelas pessoas que não querem ter direitos. Neste sentido, Milton afirma que a classe média não é formada por cidadãos, porque ela não é preocupada com direitos. A classe média brasileira é preocupada com privilégios. Ao analisar rapidamente o discurso do casal, percebemos que é disso que se trata. O discurso aqui não é analisado somente pela fala, mas também pela performance dos dois. Fica evidente, inclusive na interpelação da mulher que faz questão de assinalar que seu companheiro NÃO É CIDADÃO. Até porque a classe média, personificada ali pelos dois, não faz questão de direitos e nem de deveres, ela quer ter o privilégio de usufruir do espaço da maneira que ela achar necessária em prol de suas vontades. 

 

Este episódio foi caracterizado por esse casal, mas tais performances não são atributos somente dos dois. Um dos privilégios exibidos naquela cena é o uso do espaço público e a apropriação deste como um espaço privado pela classe média. No momento em que eles se negam a respeitar as regras de isolamento social, demonstram ali o individualismo, a soberba, o egoísmo, características históricas da classe média brasileira.  

 

Além disso, sinaliza, também, o que Milton Santos chama de processo de “desnaturação da democracia”. A democracia perde suas propriedades, é adulterada, desconfigurada. Este processo impede o avanço dos direitos fundamentais do restante da população. O privilégio dos frequentadores dos bares lotados da Barra da Tijuca que se negam a respeitar as medidas básicas de segurança para enfrentamento da pandemia da Covid-19, impede os direitos fundamentais dos outros brasileiros.

 

O achar-se correto de estar ali, impede o direito à vida dos demais brasileiros. Quando alguém se nega a estabelecer parâmetros que evita a proliferação de uma doença altamente contagiosa, coloca em risco a vida do próximo. Além de desrespeitar e quebrar qualquer outro parâmetro de sociabilidade razoavelmente digna de se viver em comunidade.

 

O comportamento dessa classe média brasileira impede que a nossa sociedade avance no debate básico de um bem-estar social. Quando alguém formado, seja em engenharia civil ou em qualquer outra graduação, se acha superior a qualquer um por causa do seu título, significa que diversas cidadanias de outras pessoas foram mutiladas. Na (des)consagrada frase “cidadão não, engenheiro civil, formado, melhor que você”, as cidadanias daqueles que não têm acesso à universidade nesse país foram mutiladas. No país onde o direito de cursar uma universidade é negado à maior parte de sua população, ter curso superior é privilégio.

 

Os debates sobre direitos são obviamente enfraquecidos no governo atual. Legitimado pelo presidente, observamos a banalização de princípios básicos. Quando o assunto é ligado aos direitos trabalhistas, por exemplo, ele argumenta: “É tanto direito que os patrões, os empreendedores, contratam o mínimo possível e pagam o mínimo possível (...) menos direito e mais emprego ou todos os direitos e o desemprego”.

 

Nesta fala ele não está dialogando com os direitos das trabalhadoras e dos trabalhadores, mas sim com os privilégios dos patrões. Esse trecho ilustra um exemplo de tantos outros que não caberiam neste espaço. O governo Jair Bolsonaro demonstra que governa para manter ou para aumentar os privilégios de uma pequena camada da sociedade, nem que seja o “privilégio” de ficar no bar aglomerado na Barra da Tijuca. Nem que o privilégio seja expor sem vergonha ou medo, a arrogância e a prepotência. 

 

No caso do casal, por exemplo, o privilégio age de forma a transparecer que mesmo errado, eles se acham certos. Percebam que o tal “não-cidadão” porta o celular para filmar e intimidar o agente da fiscalização. A crença dos privilégios dele faz com que ele acredite que de fato não está errado. Aqueles que gozam de privilégio neste país agem com as certezas no entorno de seus umbigos.

 

Este acontecimento demonstra que a formação social e histórica do brasileiro de classe média é construída em cima das cidadanias mutiladas das populações com menor poder aquisitivo. Como diz Milton “há os que não querem ser cidadãos, que são as classes médias, e há os que não podem ser cidadãos, que são os demais, a começar pelos negros”. Apesar de que neste caso o “não-cidadão” é negro. Mas isso é história para próximos assuntos. Este episódio demonstra que o bolsonarismo traz a tona a legitimidade descarada da classe média em mutilar cidadanias. 

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