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Nos dias 11, 12, 13 e 14 de Novembro de 2019 o curso de graduação em Gestão Pública para o Desenvolvimento Econômico e Social do IPPUR/UFRJ recebe inscrições para processo seletivo público para contratação de professor (a) substituto (a) na área de Gestão do Terceiro Setor e Gestão Pública.

As informações detalhadas podem ser obtidas nos links abaixo:

Links: 

- Edital nº 756 de 05 de Novembro de 2019

- Pontos para o processo seletivo

- Critérios para a prova de títulos

- Calendário do processo seletivo e membros da banca

Obs.: As inscrições deverão ser realizadas no Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional – Sala João do Rio – Prédio da Faculdade de Letras – Av. Horário Macedo, 2151 – Cidade Universitária - Rio de Janeiro. Horário de Inscrição: 10:00 às 17:00 horas

capa cartografia conflito edt

 

O IPPUR divulga o lançamento do livro "Cartografias do Conflito: Rio de Janeiro", lançado no dia 26 de outubro durante o evento "Porto Maravilha 10 anos: presente, passado e futuro da zona portuária". A publicação, que conta com textos de pesquisadores do ETTERN/UFRJ e GPDU/UFF, apresenta por meio das cartografias os agentes e os processos que definiram e materializaram o excludente projeto de cidade concretizado na Era Olímpica. E, ao mesmo tempo, evidencia como esse processo foi intensamente confrontado por lutadoras e lutadores no Rio de Janeiro.

 

Lançado no Museu da História e da Cultura Afro-Brasileira, onde aconteceu o encerramento do evento "Porto Maravilha 10 anos: passado, presente e futuro da zona portuária", "Cartografias do Conflito: Rio de Janeiro" tem como organizadoras a profª Fernanda Sánchez e a mestranda do IPPUR Paula C. Moreira. A publicação conta também com textos do profº Renato Emerson dos Santos e do doutorando do IPPUR Thiago Pinho sobre a região portuária.

 

O livro "Cartografias dos Conflitos: Rio de Janeiro é uma obra coletiva que reúne contribuições de pesquisadores do laboratório Estado, Trabalho, Território e Natureza (ETTERN/IPPUR) da UFRJ e do laboratório Grandes Projetos de Desenvolvimento Urbano (GPDU), do Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo (PPGAU) da UFF, vinculados ao Projeto de Pesquisa “Planejamento e Conflitos Urbanos: Experiências de planejamento urbano em contextos de conflito social”, apoiado pela Fundação Ford e desenvolvido no período 2015 a 2019.

 

Segundo Fernanda Sánchez e Paula C. Moreira, pelo debate das cartografias o livro busca apresentar de forma crítica os agentes e os processos que definiram e materializaram o excludente projeto de cidade concretizado na Era Olímpica, mas ao mesmo tempo, evidenciar como esse processo foi intensamente confrontado por lutadoras e lutadores no Rio de Janeiro.

 

"Não menos importante nesta dimensão política da cartografia, os mapas pretendem incitar à reflexão acerca da mídia como um poderoso agente da estratégia discursiva do  legado, de forma a alcançar os cidadãos cariocas, inclusive por meio de constantes editoriais patrocinados por agentes das grandes empresas imobiliárias e das grandes obras públicas", afirmam as organizadoras.

 

Os primeiros três capítulos discutem as dimensões raciais, da cultura e do setor imobiliário imbricados na produção e disputa da região portuária do Rio de Janeiro, de forma que essas análises se complementam para a compreensão dos mais variados conflitos acirrados pela implantação da Operação Urbana Porto Maravilha.

 

O primeiro capítulo, “Repertórios Espaciais de ação na Luta Anti-Racista: O Caso da Pequena África no Rio de Janeiro” foi encomendo para a publicação ao profº Renato Emerson dos Santos, que discute a história espacializada dos movimentos de r-existência da população negra na região da Pequena África.

 

O segundo capítulo, “Dinâmica imobiliária: para onde sopram os ventos”, foi produzido por Thiago Pinho e Paula Cardoso, e articula diversos insumos da pesquisa sobre a dinâmica imobiliária na área da Operação Urbana Consorciada.

 

O terceiro capítulo, “Cartografia cultural: o caso do Porto Maravilha”, de Fernanda Sánchez, Amanda Wanis, Ana Carolina Machado e Antônio Pimentel Júnior, apresenta as disputas, assimetrias territoriais e desigualdades em torno ao fomento à cultura no porto, no contexto dos grandes eventos esportivos.

 

Os desiguais e históricos agentes que são desvelados pelo conflito no porto aparecem também nos três outros artigos que seguem, já em uma escala ampliada de análise. Assim, o quarto capítulo, “O Mapa-Intervenção: Perturbando Narrativas Oficiais da Cidade”, de Rosane Rebeca Santos, Grasiele Magri Grossi e Marcus Cesar Martins da Cruz, a partir da discussão metodológica da cartografia, propõe o mapa-intervenção, como uma produção de caráter relacional e articuladora de recortes, estratos e segmentos de processos complexos.

 

O quinto capítulo, “Cartografia Crítica do Deslegado Olímpico”, de Fernanda Sánchez, Poliana Gonçalves Monteiro, Ana Carolina Marques Machado e Paula Cardoso Moreira, propõe uma análise sobre diferentes tipos de conflito decorrentes ou intensificados pelos megaeventos esportivos sediados no Rio de Janeiro. Ao evidenciar e confrontar a narrativa oficial acerca das intervenções e destacar as narrativas resistentes, as autoras possibilitam a reflexão crítica acerca do legado.

 

O sexto e último capítulo, “Cartografia, Estigmatização e Visibilidade” de Rosane Rebeca dos Santos, foi escolhido como fechamento da publicação justamente pela sua proposta de reflexão metodológica em torno da cartografia, assim como as disputas pela representação implicadas em sua produção.

 

De acordo ainda com as organizadoras, "muitas dessas inquietações sobre a relação espaço-temporal procuraram desvelar a ‘história que a história não conta’ e foram criadas em relação aos conflitos de hoje, que se voltam para a memória de forma posicionada, atenta às estruturas e instituições que compõem nosso contexto presente."

 

capa livro cartografia

 

O livro "Cartografias do Conflito: Rio de Janeiro" está disponível para download em formato PDF e e-book.

Acesse no link:

https://neplacettern.wixsite.com/cartografiasconflito

imagem studioRepublica pB

 

Nas décadas de 1940/50, as quitinetes foram parte importante da verticalização no Centro de São Paulo. Sessenta anos depois, essa mesma região vive um boom imobiliário com os chamados "studios" voltados para a classe A. A pesquisadora Beatriz Diniz Kalichman analisa o processo de ressignificação da área central de São Paulo a partir do conceito de "gentrificação". O seu trabalho é mais um resultado do IPPUR/UFRJ.

A dissertação "Vendendo studios no centro das quitinetes: o caso da República pensado a partir da gentrificação e a gentrificação pensada a partir do caso da República” foi defendida, em 6 de agosto de 2019.

O trabalho contou com a orientação dos Profs(a). Dr(a) Adauto Lúcio Cardoso (IPPUR/UFRJ) e Maria Beatriz Cruz Rufino (FAU/USP). Na banca estiveram presentes o Pr. Dr. Luiz Cesar de Queiroz Ribeiro (IPPUR/UFRJ) e Dr. Samuel Thomas Jaenisch (Observatório das Metrópoles/UFRJ).

O título "Vendendo studios no centro das quitinetes" foi a forma encontrada pela pesquisadora Beatriz Diniz Kalichman de aludir às mudanças ocorridas no Centro de São Paulo pensando através das transformações nos microapartamentos.

A pesquisa busca refletir sobre o conceito de gentrificação a partir do estudo das transformações em uma área específica do distrito da República, no Centro de São Paulo, se concentrando em entender como ideias sobre transformação urbana vindas de outras partes do mundo influenciam as percepções sobre área e as propostas para sua transformação, tanto por parte do poder público quanto dos agentes privados.

Segundo a pesquisadora, a ideia é entender a gentrificação como conceito dentro desse contexto maior, e como as percepções do conceito e do contexto se influenciam mutuamente.

Para isso, o trabalho traça uma breve história da área, com foco na transformação de seus microapartamentos, chamados em um primeiro momento de quitinetes e agora de studios, para compreender melhor como as transformações desse produto imobiliário ajudam a entender as mudanças na área.

Esse estudo de caso foi pensado a partir da literatura sobre gentrificação, mas também serve para refletir sobre essa literatura e suas possibilidades e limitações para pensar o caso paulistano.

O trabalho "Vendendo studios no centro das quitinetes: o caso da República pensado a partir da gentrificação e a gentrificação pensada a partir do caso da República” será disponibilizado, em breve, no site da Biblioteca IPPUR.

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Neste artigo o profº Henri Acselrad aponta que com a vitória das forças do liberal-autoritarismo nas eleições de 2018, instaurou-se no Brasil um processo de “desambientalização” do Estado brasileiro, ou seja, a convergência, dentro do governo, entre um antiambientalismo liberal e um antiambientalismo autoritário. O primeiro busca desconstituir a questão pública do meio ambiente; já o segundo busca justificar a expropriação de povos indígenas e quilombolas, para que se faça uma espécie de privatização de fato do uso dos espaços comuns das águas, do ar e dos sistemas vivos, em favor das grandes corporações e em detrimentos dos mais despossuídos.

 

Henri Acselrad (IPPUR/UFR) é doutor em Planejamento, Economia Pública e Organização do Território pela Université Paris 1 (Sorbonne). Atua analisando temas como planejamento e meio ambiente, transformações do processo de trabalho e relações sociais.

 

Vem escrevendo, nos últimos anos, sobre as Políticas Públicas para o Meio Ambiente e o papel da Ciência para evitar tragédias ambientais.

 

O Boletim IPPUR divulga o artigo do proº Henri Acselrad apresentado na mesa “UFRJ pela Amazônia e causas indígenas”, na 16ª. Semana Nacional de Ciência e Tecnologia (SNCT/UFRJ) e 10ª Semana de Integração Acadêmica – SIAc, Rio de Janeiro, 21/10/2019.

 

O texto traz uma reflexão fundamental sobre os rumos da política ambiental no país sob a tutela do Governo Bolsonaro, e como o antiambientalismo autoritário do atual presidente ganha a forma de um "racismo ambiental" que condena povos indígenas e tradicionais por ocuparem espaços ambientalmente preservados que estão sendo requeridos pelo agronegócio e pela mineração para expandir seus lucros.

 

 

Amazônia, soberania e interesses                                                        

Henri Acselrad

Professor Titular do IPPUR/UFRJ

Tem-se falado muito sobre a Amazônia em sua dimensão ambiental, seu papel fundamental na regularização de chuvas para a agricultura em outras áreas do país, sua função no combate às mudanças climáticas e na sua influência na qualidade do ar das grandes cidades. Não se tem, porém, falado suficientemente dos povos indígenas que preservaram essa floresta e lutaram para protegê-la com seus conhecimentos e sua cultura - esses povos cujos direitos estão sendo ameaçados, hoje, a partir da própria máquina do Estado brasileiro.

A diversidade biológica, cultivada ao longo do tempo por povos indígenas e tradicionais, sempre foi vista pelos grandes fazendeiros como um empecilho à expansão da agricultura capitalista. A monocultura de exportação ocupa a terra em grandes extensões com poucas espécies homogêneas tratadas com química e transgenia. Quando o capitalismo mundial despertou para as possibilidades da biotecnologia, a diversidade biológica mudou de nome e passou a ser vista como fonte de riqueza - a “biodiversidade”. No Brasil atual, nem essa riqueza potencial é valorizada, pois os governantes dizem pretender retirar terras aos indígenas e reduzir o espaço ocupado por unidades de conservação.

Voltemos um pouco no tempo. No debate amazônico, nos anos 1980, com a possibilidade de um debate público mais amplo, havia uma combinação, nas forças então no poder, entre dois tipos de discurso: um que evocava a soberania (por parte de setores militares) e um discurso do interesse econômico (por parte oligarquias regionais e das grandes corporações). Em

nome da soberania, alegava-se a necessidade de ocupar os territórios supostamente vazios e ameaçados por forças estrangeiras. Pouco antes, o projeto da Ditadura havia tentado reduzir os conflitos por terra no Nordeste, atraindo trabalhadores rurais para projetos de colonização na Amazônia. Hoje sabemos que isto foi feito às custas do enorme sacrifício dos trabalhadores para lá atraídos e do genocídio de povos indígenas.

O discurso da soberania preocupava-se em controlar territórios e fronteiras. Mas para as grandes corporações multinacionais e oligarquias regionais não importava a soberania, mas o interesse que tinham em transformar rios, matas e subsolo - ecossistemas e paisagens amazônicos - em fonte de lucros.

Hoje, a noção de soberania virou um mero recurso retórico para justificar a exploração da Amazônia a todo custo, o descontrole do desmatamento e das queimadas. O que dizem os atuais governantes é que não importa o indígena, nem a árvore; só o minério. Tudo agora se resume a interesse econômico das grandes corporações.

Como explicar esse esvaziamento do discurso da soberania e a priorização, na Amazônia, do grande negócio da mineração, do agronegócio e do hidro negócio, em detrimento dos territórios dos povos indígenas e comunidades tradicionais?

É sabido que, ao longo dos anos 1970, verificou-se um processo de “ambientalização” dos Estados: criaram-se instituições de controle e pretendeu-se gerar alguma regulação ambiental para evitar, por exemplo, que o rompimento de uma barragem contaminasse uma bacia, comprometesse a pesca e o abastecimento de água das cidades; ou que as matas fossem derrubadas alterando o regime de chuvas e a vitalidade dos rios.

Só que as reformas neoliberais, iniciadas nos anos 1980, passaram, em paralelo, a desfazer as regulações que haviam sido criadas como uma Tapeçaria de Penélope: o que se fazia de dia se desfazia de noite. No caso brasileiro, houve um processo de “ambientalização truncada” do Estado, ou seja, “uma ação que foi interrompida, deixada incompleta ou impedida de ser levada a cabo”. Logo após a criação de instituições de controle ambiental, passaram a prevalecer pressões econômicas por flexibilização de leis e normas (vide novos Códigos Florestal e Mineral).

mesa Siac Amazonia

Com a vitória das forças do liberal-autoritarismo nas eleições de 2018, instaurou-se no Brasil o que poderíamos chamar de umaTapeçaria de Penélope à própria luz do dia:o que se fez de dia se desfaz de dia mesmo. O que eram pressões de bastidores por flexibilização de leis, liberação de práticas de degradação de ecossistemas e expropriação dos pequenos produtores, comunidades indígenas e quilombolas, tornou-se discurso explícito. O que temos visto nesse processo de “desambientalização” do Estado brasileiro é a convergência, dentro do governo, entre um antiambientalismo liberal e um antiambientalismo autoritário.

O antiambientalismo liberal é aquele que sustenta que quanto mais liberdade houver para as corporações, mais dinheiro elas ganharão e mais recursos restarão, supostamente, para a proteção ambiental. O antiambientalismo de corte liberal originado nos EUA em torno ao chamado Wise-Use Movement sempre propugnou a remoção das regulações de proteção ao meio ambiente, sugerindo que os produtos naturais são mais perigosos que os produtos industrializados, que a reciclagem obrigatória de certos produtos leva a que se consuma mais recursos do que se poupa e que o corte intensivo de árvores favorece o crescimento das florestas (sic).

Este antiambientalismo liberal, que procura hoje, entre nós, desconstituir a questão pública do meio ambiente, articula-se a um antiambientalismo autoritário eracializado que busca justificar a expropriação de povos indígenas e quilombolas, para que se faça  uma espécie de privatização de fato do uso dos espaços comuns das águas, do ar e dos sistemas vivos, em favor das grandes corporações e em detrimentos dos mais despossuídos. Vide extinção Comitê de suporte ao Plano Nacional de Contingências para Incidentes de Poluição por óleo em Água, perseguição aos funcionários que fiscalizam e aplicam leis contra a degradação da floresta e invasão de terras indígenas.

Para a lógica neoliberal, as formas de produção não especificamente capitalistas - de povos e comunidades tradicionais - tenderiam a desaparecer desde que os governos favorecessem o acesso das grandes corporações a espaços territoriais ampliados. Alegavam os economistas liberais que a competição tenderia a eliminar as formas de produção destes povos tradicionais, de uso comum de recursos ou de produção agrícola em pequena escala, não dependentes de insumos químicos e mecânicos.

Entretanto, na perspectiva do liberalismo autoritário que hoje paira sobre nós, elas não estariam sendo eliminadas conforme o esperado por vias apenas econômicas: a disposição e a ação dos povos e comunidades tradicionais, em luta por assegurar suas conquistas no reconhecimento de seus direitos territoriais, são vistas por representantes do agronegócio como um problema. Porta-vozes do ruralismo conservador passaram a adotar um discurso abertamente discriminatório: os povos indígenas e tradicionais seriam “improdutivos e indolentes”.

O antiambientalismo assume, assim, a forma de um “racismo ambiental” que, até então, havia se limitado aos bastidores da política. Esta modalidade de ideologia colonial não é de todo nova; ela já foi adotada, no passado por agentes engajados na penetração dos interesses da agricultura comercial em áreas ocupadas por povos nativos e caboclos. São inúmeros os documentos históricos que ilustram a leitura que faziam estes agentes históricos quando identificavam as dificuldades de introduzir a agricultura em grande escala em áreas onde vigorava a abundância produzida pelos sujeitos do cultivo da diversidade biológica – pequenos produtores, comunidades ou povos tradicionais. Estes relatórios eram explícitos: a autossuficiência camponesa e de comunidades tradicionais eram seu principal obstáculo. Estes observadores viam no “conforto” e na “fartura” (termos por eles mesmos utilizados) em que viviam os caboclos do sertão do país - ao contrário, pois, da suposta miséria hoje alardeada por ideólogos anti-indígenas - o sinal da indisposição que esses grupos demonstravam ao assalariamento na grande fazenda.

Com a eleição de 2018, ganharam força, no Brasil, as propostas de suspensão do reconhecimento de terras indígenas e quilombolas como parte do projeto mais amplo de desregula a exploração econômica, minerária em particular, da Amazônia. Fiscalização da grilagem e do desmatamento ilegal são ações vistas como parte de uma conspiração ambientalista. Proteção do meio ambiente e reconhecimento de direitos territoriais de povos indígenas e tradicionais são postos na condição de inimigos do progresso e do bem-estar da nação brasileira.

O antiambientalismo racializado recupera, assim, a ideologia colonial anti-indígena, configurando uma forma abrasileirada de discriminação do tipo da que é há tempos denunciada por movimentos negros e dos direitos civis norte-americanos. Lá, o racismo é denunciado pelo fato de autoridades e empresas penalizarem as comunidades negras de baixa renda, decidindo localizar, em suas áreas de residência, os resíduos danosos da acumulação de riqueza, cujos benefícios são, por sua vez, destinados a brancos e ricos. Aqui, vemos o racismo aplicar-se à condenação de povos indígenas e tradicionais por ocuparem espaços ambientalmente preservados que estão sendo requeridos pelo agronegócio e pela mineração para expandir seus lucros. Este antiambientalismo racializado converge, assim, com o antiambientalismo liberal e antiregulatório, promovendo uma versão tropicalizada do racismo ambiental do tipo daquele originalmente denunciado pelos movimentos negros e de justiça ambiental dos EUA, pretendendo colocar, aqui, o direto à propriedade privada acima de tudo e de todos.

Termino citando o que disse um representante de povos e comunidades tradicionais na V Conferência Geraizeira, realizada em 2018: “Muitos discutem hoje o mundo do bem viver. Nós, povos indígenas e comunidades tradicionais, temos isso nas mãos. O que vale não é o amor ao dinheiro; o que vale somos nós que impedimos que os rios sequem e podemos dormir de janela aberta, discutindo nossa organização social”. O que podemos apreender com os povos indígenas é que seus modos de vida foram muito bem inventados. E que, portanto, inversamente, o atual modo de vida dominante, baseado na desigualdade social, de raça e gênero, assim como no consumismo, pode, parodiando a canção de Chico Buarque, ser “desinventado”.

 

_________________

 

¹Texto apresentado na mesa “UFRJ pela Amazônia e causas indígenas”, 16ª. Semana Nacional de Ciência e Tecnologia (SNCT/UFRJ) e 10ª. Semana de Integração Acadêmica – SIAc, Rio de Janeiro, 21/10/2019.

²Vimos recentemente como a crise das queimadas estimulada pela desmonte das instituições de controle ambiental pelo governo federal chegou até a escurecer o céu de São Paulo.

³Na mitologia grega, mulher de Ulisses, que, enquanto o aguardava sem notícias, dizia que só aceitaria se casar de novo quando terminasse de tecer um tapete, que, à noite, desfazia às escondidas.

4Dayrell, C.A., De Nativos e de caboclos: reconfiguração do poder de representação de comunidades que lutam pelo lugar, Tese Doutoramento, PPGDS, UNIMONTES, Montes Claros, 2019. p. 392

5 “Você que inventou a tristeza ora tenha a fineza de ´desinventar`”, Chico Buarque, Apesar de Você.

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A XXV Semana PUR promoveu a mesa "Rumo aos 50 anos do IPPUR e à consolidação do campo de Planejamento Urbano e Regional". O encontro serviu para mostrar à nova geração de estudantes o papel do instituto na formação do Campo do PUR no Brasil, o engajamento do seu corpo docente e a defesa de políticas efetivamente democráticas. Além disso, foi um momento também de olhar para o futuro. Segundo Orlando Alves Jr., diante do contexto de retrocesso cabe ao IPPUR o desenvolvimento de novas epistemologias, de rearticular o campo e produzir conhecimento que possa subsidiar a disputa pelo território.

 

A mesa "Rumo aos 50 anos do IPPUR e à consolidação do campo de Planejamento Urbano e Regional" contou com a participação dos professores Orlando Alves dos Santos Jr., Tamara Egler e Rainer Randolph.

 

Na sua apresentação o prof. Orlando Jr., atual diretor do instituto, afirmou que a retomada do projeto neoliberal na América Latina e o desmonte de políticas públicas consolidadas nos últimos 20 anos no Brasil, coloca vários desafios à comunidade acadêmica do IPPUR.

 

Ele resumiu os desafios em cinco pontos, que podem servir como eixos norteadores para pensar as próximas ações do instituto.

 

Desafio 1: desenvolvimento de novas epistemologias do território, a fim de dar conta de novas categorias, métodos e geografias capazes de interpretar essa dinâmica do desenvolvimento desigual.

 

Desafio 2: a necessidade do protagonismo do IPPUR no campo do Planejamento Urbano e Regional frente ao desmonte das políticas públicas. E, além disso, a necessidade de articulação por parte do IPPUR nos campos das Públicas e no campo do PUR.

 

Desafio 3: desenvolvimento de metodologias e pedagogias para a disputa territorial, ou seja, "o IPPUR deve investigar e refletir sobre as mudanças locais de dominação do território — como no caso do Rio de Janeiro a presença das igrejas pentecostais e as milícias, por exemplo. Dessa forma, em que medida o IPPUR não abandona a disputa do território?", defende Orlando.

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Desafio 4: como lidar com a emergência do "urbanismo militar", ou no caso do Rio de Janeiro do "urbanismo miliciano". Como a produção das periferias está se dando com a presença das milícias? "Nesse sentido, precisamos olhar para as novas práticas de solidariedades locais, como a subordinação da cidade a esse tipo de ordem neoliberal", afirmou o professor.

 

Desafio 5: Necessidade de estabelecer diálogos entre o Campo do PUR e outras linguagens, com traduções e mediações, e outras modalidades de universalidade.

 

Segundo Orlando Jr., os desafios são muitos diante do atual contexto de desmonte das políticas públicas no país. "E cabe ao IPPUR, ao seu corpo docente e discente ações de engajamento e defesa de políticas democráticas", afirmou.

 

HISTÓRIA DO IPPUR

 

Já a profª Tamara Egler afirmou que a Ciência, no atual contexto, está correndo perigo, pois está sendo esvaziada e colocada em chegue. "Os fluxos de comunicação fluem de forma rizomática, alterando e esvaziando o papel dos autores. Nesse caso, prevalece a versão e não o fato. E vemos as fake news crescerem e terem papel de legitimar ações e votos. A ampla difusão de fake news tem produzido uma comunicação difusa", argumentou.

 

Tamara Egler defendeu a necessidade da Ciência de se comunicar para fora da universidade. "Esse é um momento de fortalecer as ações de difusão científica e mostrar à sociedade o que o IPPUR tem produzido em termos de conhecimento".

 

Tamara lembrou ainda de momentos históricos importantes para o instituto, quando ela participou na década de 1970 para exigir melhorias. "O engajamento é uma marca dos professores e alunos do IPPUR, desde o começo da trajetória do instituto sempre atuamos de forma coletiva por melhorias. Isso elemento constituinte deve continuar nas nossas ações futuras".

 

Já o prof. Rainer Randolph lembrou da importância do IPPUR para o Campo do Planejamento Urbano e Regional no país. Em 2016, por exemplo, o instituto organizou e realizou o IV Congresso Mundial de Escolas de Planejamento (WPSC), reunindo no Rio de Janeiro mais de 1.000 pessoas que assistiram e apresentaram mais de 600 trabalhos do mundo inteiro.

 

"A elaboração de uma abordagem crítica, múltipla e construtiva para o nosso campo é algo que destaca o IPPUR (a contribuição de seus docentes, pesquisadores e mesmo estudantes) em relação a outras instituições", defende o prof. Rainer.

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